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06:57 08 de December de 2019

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Da academia ao mercado: como fazer a conexão?

Como potencializar as trocas entre a academia e as startups? Para tentar responder a essa pergunta, a equipe do programa BNDES Garagem promoveu um encontro na última sexta, 26 de julho, entre representantes de universidades, centros de pesquisas, instituições de fomento e empreendedores.  Organizado em quatro mesas redondas, o evento discutiu os desafios atuais para conectar a pesquisa científica às demandas da sociedade e estimular o desenvolvimento de novos negócios.

 

O papel das entidades de fomento

 

No início do encontro, o presidente da Faperj, Jerson Lima Silva, lembrou que, embora o Brasil esteja hoje entre os principais produtores de conhecimento científico do mundo (o país ocupa a 15º posição na quantidade de artigos citáveis produzidos, por exemplo), os resultados não se traduzem para o universo das empresas e para a economia do país. Ele citou esse como um dos principais desafios de entidades como a Faperj, que têm como missão apoiar a pesquisa de excelência e fomentar sua aplicação por empresas nascentes. O programa Startup Rio, segundo Jerson, é uma iniciativa da entidade que vem ajudando a promover o empreendedorismo no estado.

 

Dedicada desde o seu surgimento a financiar projetos de ciência, tecnologia e inovação, a Finep também oferece diferentes modalidades de apoio para o desenvolvimento das startups que contemplam da ideia inicial até a consolidação do empreendimento. Segundo Roberto Chiacchio, analista do departamento de empreendedorismo e investimento em startups da Finep, a instituição conta com programas específicos para diferentes públicos, que envolvem crédito reembolsável, não reembolsável e investimento. Além de linhas com foco em startups e empresas, a entidade oferece ainda programas voltados para pesquisa, como o Finep Conecta,  que atende à demanda de Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs).

 

Representando o BNDES, a advogada Izabela Algranti e o gerente Fabricio Brollo falaram sobre os fundos patrimoniais como alternativa para a sustentabilidade financeira de universidades e instituições de pesquisa. Izabela ressaltou que a aprovação de marco regulatório sobre o tema (saiba mais) deixou clara a necessidade de segregação patrimonial, estabelecendo parâmetros para esse tipo de instrumento. Ela esclareceu que é preciso constituir uma fundação ou associação privada para arrecadar os recursos, que não podem ser depositados no caixa único da universidade. “O endowment não substitui a dotação orçamentária regular da universidade. Ele é um complemento para o desenvolvimento de outras ações”, pontuou.

 

Fabricio acrescentou que os fundos patrimoniais podem ser constituídos a partir de qualquer ativo que possa ser rentabilizado, como imóveis desocupados e direitos de propriedade intelectual por exemplo. Segundo ele, a grande vantagem é que os fundos seguem uma lógica de estoque, e não de fluxo, o que faz com que não sejam afetados pela conjuntura econômica. Uma vez constituídos, esses fundos poderiam ser usados para fomentar o empreendedorismo e apoiar empresas emergentes, de acordo com a política estabelecida no ato de sua criação.  

  Evento BNDES Garagem

  

Os desafios das universidades e centros de pesquisa

 

A necessidade de aproximar a área acadêmica das demandas da sociedade esteve presente na fala dos representantes de diferentes universidades, públicas e privadas, que participaram do encontro. A professora Daniela Uziel, da UFRJ, ressaltou que é preciso tirar as pessoas da rota de retroalimentação da academia, estimulando ações de empreendedorismo. Para Maria Guiomar Frastrone, pró-reitora do Ibmec, é necessário também incluir no processo pedagógico práticas que transformem a relação entre as instituições e o mercado, facilitando a transformação da pesquisa em produto.

 

O excesso de requisitos formais e o modelo linear de funcionamento das universidades foram objeto de crítica do professor da UFRJ, Édison Renato. Ele afirmou que esses fatores dificultam a integração com o mercado e até mesmo a carreira docente, impedindo, por exemplo, que professores desenvolvam negócios a partir de suas pesquisas.

 

Por outro lado, o professor Ricardo Yogui, da PUC-Rio, comentou que muitas vezes é difícil inovar dentro das empresas, já que “o ambiente empresarial é muito árido para falar de inovação disruptiva”. A academia, de acordo com ele, é mais aberta, embora seja preciso estimular o empreendedorismo científico.

 

As spin-offs acadêmicas, empresas que surgem a partir de pesquisas ou de uma propriedade intelectual desenvolvida nas universidades, podem ser uma alternativa. Segundo o presidente da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), José Alberto Aranha, “é muito difícil sair de uma bancada de pesquisa para indústria”.  Por isso, é importante que exista a possibilidade de desenvolver unidades piloto de um produto ou serviço no ambiente acadêmico. Ele destaca ainda o papel das aceleradoras para fazer a interface entre universidades e empresas.

 

Outro caminho a ser explorado, afirma Aranha, é estimular a inovação ainda no ensino médio, principalmente junto dos Institutos Técnicos (ITs). Ele explica que os ITs podem ser um ambiente para a geração de inovações incrementais e de processo, estimulando os alunos ao empreendedorismo e fazendo com que cheguem à universidade já com uma ideia de negócio a ser desenvolvida.

 

Os palestrantes comentaram ainda a tendência de que as cidades se tornem locais de experimentação e de teste para inovações. “Desde cedo os alunos deveriam estar tentando resolver problemas reais da sua cidade ou do seu bairro”, ponderou o presidente da Anprotec.

 

A visão dos empreendedores

 

Desenvolver pesquisas sobre os produtos/serviços nas universidades e centros de pesquisa pode ser uma forma de comprovar resultados e ajudar as startups na hora de obter um financiamento. No entanto, muitas delas ainda percebem obstáculos para ter acesso e trabalhar em parceria com a academia.  Ananda Morgado, da BioHack, startup que trabalha com valorização de resíduos, contou que teve dificuldade de encontrar uma universidade disposta a realizar pesquisa relacionada ao seu negócio. Mesmo em contato com centros de pesquisa que trabalhavam com o tema, muitos não demonstraram interesse em um projeto diferente do que já realizavam. A CEO da startup Remedin, Claudia Amaral, disse também não ter conseguido estabelecer uma parceria com as universidades para empregar estagiários em sua empresa.

 

Uma possível solução para esses problemas foi apontada pela representante do SENAI Mariana Doria. Ela explicou que os Institutos SENAI de Inovação, que contaram com financiamento do BNDES, estão disponíveis hoje em todo o país para ajudar empresas de qualquer porte a desenvolver suas pesquisas. Segundo ela, cerca de 30% dos projetos apoiados são de startups.  Felipe Pires, do MBA de Finanças do Ibmec, destacou como possibilidade a formação de hubs de pesquisa nas universidades, que envolvam diferentes áreas acadêmicas e criem sinergia entre o corpo docente.

 

A proposta ao final do evento foi de manter viva a rede dos participantes e potencialmente ampliá-la com a inclusão de outras instituições. 

 

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