Projeto financiado pelo BNDES impulsiona inovações em silvicultura de espécies nativas

  • Iniciativa receberá R$ 24,9 milhões do BNDES em recursos não reembolsáveis

  • Sob coordenação técnica da Embrapa e da Universidade Federal de São Carlos, projeto espera atrair novos parceiros do setor privado e academia

  • Plantio de espécies nativas é o foco principal para ampliar oferta de madeira de alta qualidade no país

    O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) reuniu nesta terça-feira (17) representantes da academia, de órgãos governamentais, do setor privado e do terceiro setor para celebrar o apoio do Banco ao Programa de Pesquisa e Desenvolvimento em Silvicultura de Espécies Nativas (PP&D-SEN), iniciativa de âmbito nacional lançada em 2021 pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. No evento, foram apresentados os Protocolos de Pesquisa do programa, resultado do trabalho de 53 pesquisadores de 29 instituições diferentes, e as principais linhas de ação. Os participantes também conheceram as formas para participação no projeto.

    A silvicultura é a ciência dedicada ao cultivo, manejo e conservação de florestas e áreas arborizadas. Ela abrange desde o planejamento e o plantio até a colheita e o processamento de produtos florestais, como madeira e celulose. A finalidade do projeto é desenvolver e disseminar inovações tecnológicas, contribuindo para que a silvicultura de espécies nativas ganhe escala no Brasil, a exemplo do que ocorreu com a silvicultura de eucalipto. A expectativa é de que o país possa ocupar uma posição de liderança na produção sustentável de madeira tropical.

Material de divulgação do PP&D-SEN

Foto: Marcelo Martins / BNDES

O investimento do BNDES no PP&D-SEN será de R$ 24,9 milhões em recursos não reembolsáveis do Fundo Tecnológico do Banco (Funtec), aos quais se somarão até R$ 5,9 milhões em contrapartidas não financeiras e pelo menos R$ 2,8 milhões em contrapartidas financeiras. Os aportes serão feitos ao longo dos cinco anos da primeira fase do programa, que pode chegar a 30 anos. O objetivo é impulsionar a inovação e o avanço tecnológico na silvicultura de espécies nativas, contribuindo para o desenvolvimento sustentável do setor florestal brasileiro e para fortalecimento da bioeconomia.

Na mesa de abertura, o superintendente da Área de Meio Ambiente do BNDES, Nabil Kadri, destacou que a agenda de valorização das florestas nativas e de restauração florestal é vista pelo Banco com prioridade institucional altíssima. “Desde 2023, nós conseguimos construir uma plataforma muito complexa, o BNDES Florestas, que envolve recursos financeiros, instrumentos não financeiros e parcerias com diversas instituições. Chegamos a 2026 com uma carteira que já mobilizou R$ 7 bilhões, com geração estimada de 70 mil empregos e expectativa de plantar mais de 280 milhões de árvores. Em três de anos de trabalho, estamos entregando um plano de plantio de mais de uma árvore por habitante do Brasil”, afirmou.

“Defendemos que o segmento de restauração de espécies nativas seja visto como um motor de desenvolvimento econômico nos territórios. É importante reafirmar esses compromissos publicamente para que fique muito claro o nosso esforço para o desenvolvimento dessa agenda”, completou o superintendente.

Superintendente de Meio Ambiente do BNDES, Nabil Kadri, e diretora de governança e informação da Embrapa, Selma Beltrão

Foto: Marcelo Martins / BNDES

Para o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, transformar a silvicultura de espécies nativas em uma atividade econômica de escala é investir em ciência, inovação e formação de capacidades: “Com esse projeto, queremos ampliar a capacidade de gerar renda, empregos e valor nos territórios e, ao mesmo tempo, contribuir para a conservação das florestas e o fortalecimento da bioeconomia do país.”

O programa - O PP&D-SEN prevê a implementação de 14 Sítios de Estudo de Longa Duração, distribuídos inicialmente na Amazônia e na Mata Atlântica, onde serão cultivadas 30 espécies prioritárias nativas destes biomas. Também serão criados seis Polos de Referência – áreas com plantios consolidados que vão antecipar o fornecimento de informações. “Os Polos de Referência são importantes porque são essas áreas que vão gerar resultados primeiro”, explicou o professor Ricardo Viani, representante do Conselho Diretivo do PP&D-SEN.

O programa parte da premissa de que o Brasil precisa de políticas públicas e incentivos que promovam o plantio em larga escala de espécies nativas de alto valor econômico. Hoje, apesar da crescente procura por madeira de alta qualidade, as plantações comerciais para a produção sustentável destas espécies ainda permanecem em uma fase inicial, diante do seu enorme potencial.

Além de suprir a demanda por madeira nativa nos mercados nacional e internacional, a silvicultura de espécies nativas também contribui para a redução do desmatamento ilegal e da degradação florestal, ao mesmo tempo que promove a conservação da biodiversidade, aumento o sequestro de carbono, gera empregos e renda e atrai investimentos públicos e privados.

Parceiros – A coordenação técnica do projeto está dividida entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), responsável pelas ações na Amazônia, e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), à frente das atividades na Mata Atlântica. A iniciativa conta com a gestão administrativa, financeira e logística da Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FAI- UFSCar), entidade sem fins lucrativos que apoia a UFSCar.

“Nosso papel, enquanto fundação de apoio, é dar segurança e agilidade aos pesquisadores para que eles possam dedicar todo o seu tempo à pesquisa”, disse o diretor da FAI, Targino Filho, na abertura do evento. Segundo ele, o projeto tem potencial para alterar a participação do Brasil na produção mundial de madeira tropical, hoje de apenas 10%.

A reitora da UFSCar, Ana Beatriz de Oliveira, destacou que o fortalecimento de redes colaborativas é um caminho fundamental para avançar na agenda do desenvolvimento sustentável. “Temos o compromisso de trabalhar em defesa dessa pauta, assim como defenderemos sempre a ciência, a tecnologia e a educação como caminhos para a nossa soberania”, afirmou.

Reitora da UFSCar, Ana Beatriz de Oliveira, destacou compromisso com a pauta ambiental

Foto: Marcelo Martins / BNDES

Para Selma Beltrão, diretora de Governança e Informação da Embrapa, é preciso dar escala à silvicultura de espécies nativas e, com a execução desta primeira fase na Amazônia e Mata Atlântica, ampliar o Programa para outros biomas, como o cerrado. A visão é compartilhada pela gerente-executiva da Coalizão Brasil, Carolle Alarcon, que enxerga o apoio do BNDES e de novas instituições de pesquisa como uma alavanca para ampliação dos impactos. “Esse projeto permite consolidar as bases estruturais para uma nova economia florestal ancorada em ciência, inovação, coordenação institucional e visão de longo prazo. Precisamos de escala para que a silvicultura de nativas deixe de ser uma atividade de nicho e torne-se parte central da agenda de uso da terra no Brasil”, sustentou.

O professor Daniel Piotto, pesquisador da Universidade Federal do Sul da Bahia, defendeu o crescimento da silvicultura de nativas não apenas para restauração florestal, mas para produção comercial e desenvolvimento econômico, incluindo as populações tradicionais. “A silvicultura no Brasil é bem evoluída, mas ainda focada em monocultivo de espécies exóticas. Estamos em um processo de mudança de paradigma, com entrada de novas tecnologias e maior diversidade de produtos florestais”, explicou.

A professora Fátima Piña-Rodrigues, pesquisadora da UFSCar, chamou a atenção para a “coragem” do BNDES de apoiar um modelo de gestão participativo. “Temos um conselho gestor formado por técnicos e representantes de todos os parceiros e instituições envolvidas. Esse trabalho de longo prazo vai gerar um banco de dados que ficará como herança para a silvicultura nacional”, disse.

Legislação e ambiente regulatório – Em mesa com representantes do setor privado, foi unânime a avaliação de que é preciso aprimorar a legislação do setor para garantir previsibilidade aos produtores. “Precisamos ter certeza de que vamos conseguir colher essas espécies nativas”, disse o gerente florestal da holding Ibemapar, Filemom Mokochinski. Ele também destacou a necessidade de ampliar pesquisas e levantar mais dados econômicos para que a silvicultura de nativas ganhe maior visibilidade entre as empresas.

Na mesma linha, o professor Luiz Estraviz, da Universidade de São Paulo (USP), defendeu mudanças no ambiente econômico e institucional, além da implementação de políticas públicas favoráveis ao setor. Na visão da pesquisadora Noemi Leão, da Embrapa Amazônia Oriental, os plantios florestais só ganharão escala se houver apoio da iniciativa privada.

 

Iniciativa aposta no potencial da silvicultura

Foto: UFSCar / Divulgação

O interesse das empresas foi destacado por Márcio Costa, engenheiro da Área de Meio Ambiente do BNDES. “Estamos vivendo um momento de efervescência no setor de restauração florestal no Brasil. A atual carteira do BNDES mostra a pujança e a capacidade do setor privado de participar desses projetos”, destacou.

Resultados esperados – Além de criar protocolos de manejo florestal, produzir sementes de boa qualidade e acelerar pesquisas de melhoramento genético, o PP&D-SEN espera estabelecer uma rede de pesquisadores de instituições em todo o país. “Talvez o maior ganho desse projeto seja o número de pessoas que serão capacitadas e formadas para atuar com espécies nativas. Meu sonho é que, com essa rede qualificada, a madeira tropical se torne para o Brasil o que o eucalipto já foi”, disse a professora Fátima Piña-Rodrigues.

Na frente regulatória, o programa espera criar um arcabouço legal simplificado e desburocratizado para reduzir o risco de plantio e manejo de espécies nativas. Outro resultado esperado é propiciar a maior adesão de produtores e um melhor ambiente para negócios e investimentos. “Lá na frente, podemos ter produtores rurais adotando soluções de silvicultura nas suas áreas de baixa aptidão agrícola”, disse o engenheiro do BNDES, Márcio Costa.

O professor Daniel Piotto chamou a atenção para o desenvolvimento de tecnologias que tragam segurança aos produtores. “Temos que chegar ao produtor com um pacote tecnológico robusto que possa atender suas expectativas, porque o trabalho é de longo prazo. Quando se trata de restauração florestal, existe uma flexibilidade maior. Mas, na produção, a gente não pode errar”, resumiu.

A professora Fátima Piña-Rodrigues, pesquisadora da UFSCar, chamou a atenção para a “coragem” do BNDES de apoiar um modelo de gestão participativo. “Temos um conselho gestor formado por técnicos e representantes de todos os parceiros e instituições envolvidas. Esse trabalho de longo prazo vai gerar um banco de dados que ficará como herança para a silvicultura nacional”, disse.

Legislação e ambiente regulatório – Em mesa com representantes do setor privado, foi unânime a avaliação de que é preciso aprimorar a legislação do setor para garantir previsibilidade aos produtores. “Precisamos ter certeza de que vamos conseguir colher essas espécies nativas”, disse o gerente florestal da holding Ibemapar, Filemom Mokochinski. Ele também destacou a necessidade de ampliar pesquisas e levantar mais dados econômicos para que a silvicultura de nativas ganhe maior visibilidade entre as empresas.

Na mesma linha, o professor Luiz Estraviz, da Universidade de São Paulo (USP), defendeu mudanças no ambiente econômico e institucional, além da implementação de políticas públicas favoráveis ao setor. Na visão da pesquisadora Noemi Leão, da Embrapa Amazônia Oriental, os plantios florestais só ganharão escala se houver apoio da iniciativa privada.

Foto: Marcelo Martins / BNDES

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