Em dois anos, BNDES já mobilizou R$ 3,4 bilhões para projetos florestais brasileiros

  • Banco lança a plataforma BNDES Florestas para dar transparência às ações no setor 
  • BNDES aprova crédito para iniciativas de restauração da Suzano (R$ 250 milhões) e do grupo Belterra (R$ 100 milhões) 
  • Novo edital do Floresta Viva oferece R$ 10 milhões para restauro florestal em terras indígenas 
  • Concessões florestais e mercado de crédito de carbono, na agenda de restauração, são debatidos no Banco

Desde 2023, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mobilizou R$ 3,4 bilhões para conservação, recuperação e manejo de florestas, combinando recursos não reembolsáveis, crédito, e apoio a concessões. Em resultados práticos, o montante equivale a 70 milhões de árvores plantadas e 23,5 mil empregos gerados - um avanço que coloca o país em rota para a meta de 12 milhões de hectares restaurados até 2030 e dá tração à bioeconomia de espécies nativas como vetor de desenvolvimento.

Os dados foram anunciados na sexta-feira, 10, no seminário de lançamento da plataforma BNDES Florestas, que organiza e dá transparência às ações do Banco no setor florestal. No evento, que antecede a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), também foi apresentado o BNDES Floresta Inovação, iniciativa com foco no mercado internacional de madeira tropical. Além disso, foram divulgados detalhes de três iniciativas inéditas de restauração florestal, em parceria com a Suzano, a Fundação Bunge, a Agrícola Alvorada S.A. e o Grupo Belterra. Somadas, as ações alcançam R$ 384,9 milhões.

A diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, adiantou que ao menos outros quatro anúncios serão feitos antes da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que acontecerá em Belém (PA), entre os dias 10 e 21 de novembro. Segundo ela, é preciso encarar a agenda de florestas como uma agenda econômica. Tereza Campello destacou o trabalho do BNDES para criar um ambiente de confiança no país, capaz de atrair novos atores e investimentos. A nova plataforma dá visibilidade aos esforços empreendidos.

Tereza Campello apresenta plataforma BNDES Florestas

Foto: Jaqueline Machado/BNDES

"O BNDES Florestas é um conjunto de iniciativas, uma frente de ação estratégica do BNDES. Aqui temos uma parte das soluções que já colocamos de pé. E pretendemos, no próximo período, anunciar outras que estão no forno, prontas para serem apresentadas. São esforços estamos fazendo para capturar carbono, para construir um mercado de carbono robusto no Brasil, para viabilizar a agenda de restauro florestal e para dar valor para as nossas nativas", explicou.

Na abertura do evento, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, reforçou a necessidade de combater o “negacionismo climático” e disse que apenas reverter o desmatamento não é mais suficiente. “O combate ao desmatamento permanece como uma das nossas principais entregas, mas também estamos dando passos decisivos na frente de restauro florestal. Não tem nada mais eficiente para sequestrar carbono do que plantar árvore”, afirmou.

Mercadante citou a atuação do BNDES no desenvolvimento dos setores de celulose e aviação e destacou ainda o seu papel no fomento de soluções inovadoras. “O mercado resolve os problemas mais importantes do financiamento, mas, como banco público, o BNDES consegue percorrer caminhos aonde o setor privado não chega”, disse. “O setor florestal vai apresentar resultados exuberantes, com retorno econômico, emprego, inovação, tecnologia e resultado para acionistas”, completou.

Na área de concessão florestal, Mercadante avalia que acelerar projetos de certificação da terra é fundamental dar segurança aos investidores privados e atrair parceiros de qualidade. O presidente do BNDES também voltou a defender a criação de uma certificadora de carbono. “Temos a melhor taxonomia do sistema financeiro para descarbonização, de forma totalmente transparente. Já tivemos consulta pública e vamos fazer estudos específicos em parceria com outros bancos e instituições acadêmicas”, adiantou.

Mercadante ressalta avanços no restauro florestal

Foto: André Telles/BNDES

Em outra frente, Mercadante sustentou que o Brasil precisa fazer investimentos em inteligência artificial para não viver um “neocolonialismo digital”. “Nossas informações precisam estar na base do algoritmo, mas precisamos de um foco. Para o BNDES, o foco deve ser a criação de um banco de dados de biodiversidade”, disse.

Plataforma estratégica – Lançado no seminário, o BNDES Florestas é uma plataforma estratégica que conecta diferentes instrumentos financeiros (reembolsáveis e não reembolsáveis) e técnicos com o objetivo de desenvolver e consolidar os setores de restauração e da bioeconomia florestal no Brasil. Ela integra programas como Floresta Viva (fases 1 e 2), Arco da Restauração, Restaura Amazônia, ProFloresta+ (em parceria com a Petrobras) e projetos de inovação, além de operações de crédito do Fundo Clima e do Fundo Amazônia.

O BNDES Florestas inclui três dimensões essenciais: climática, ao consolidar o Brasil como reservatório de carbono com projetos de captura real e biodiversa; socioambiental, ao valorizar comunidades tradicionais e serviços ecossistêmicos; e econômica, ao demonstrar que restauração gera valor, emprego e inovação.

Restauração – Entre os anúncios realizados pelo BNDES durante o evento, está o financiamento de R$ 250 milhões para a Suzano – maior volume já aprovado com recursos do Fundo Clima para a recuperação de mata nativa no Brasil. Os recursos serão destinados à restauração ecológica de 24.304 hectares de áreas degradas em regiões de preservação permanente e de reserva legal nos biomas Cerrado, Mata Atlântica e Amazônica.

A expectativa é capturar 228 mil toneladas de gás carbônio equivalente por ano. As ações irão contribuir para a regularização ambiental de mais de 1.000 imóveis rurais distribuídos em seis estados: São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Maranhão, Pará e Mato Grosso do Sul.

Também foram aprovados R$ 100 milhões do Fundo Clima para o primeiro projeto de restauração produtiva em larga escala de áreas na Bahia, Pará, Rondônia e Mato Grosso. Apresentada pelo Grupo Belterra, a ação inovadora pretende simultaneamente gerar renda para agricultores e recuperar 2,75 mil hectares de áreas degradadas.

O projeto envolve a implantação de sistemas agroflorestais (SAFs), com base no cacau, em parceria com pequenos e médios produtores rurais. Os SAFs buscam mesclar, em uma mesma área, diferentes culturas agrícolas e espécies florestais capazes de estabelecer uma relação harmônica.  Com a ação, estão previstos o plantio de 2,9 milhões de mudas, a remoção de 232,5 mil toneladas de gás carbônico equivalente por ano e a geração de 350 novos postos de trabalho.

Sistema agroflorestal

Foto: Grupo Belterra/Divulgação

No evento, o BNDES também lançou mais uma chamada de projetos da iniciativa Floresta Viva para restauração florestal em uma área potencial de 61 terras indígenas nos estados de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão. Fruto de parceria do Banco com a Fundação Bunge e a Agrícola Alvorada S.A., o edital destina até R$ 10 milhões não reembolsáveis às propostas que vierem a ser selecionadas.

A implantação dos projetos irá contribuir para o Arco da Restauração, iniciativa do BNDES e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) que visa recuperar áreas degradas e criar um cinturão verde de proteção na Amazônia. Este é o 13º edital lançado no âmbito do Floresta Viva, que já mobilizou R$ 358 milhões em mais de 80 projetos aprovados ou em vias de aprovação.

Inovação em silvicultura – No seminário, o BNDES lançou ainda o BNDES Floresta Inovação, iniciativa para impulsionar o Brasil como protagonista do mercado internacional de madeira tropical. Na primeira operação, foram aprovados R$ 24,9 milhões para um projeto voltado ao desenvolvimento de inovações em silvicultura de espécies nativas plantadas. Os recursos, não reembolsáveis, são do Fundo Tecnológico do Banco (BNDES Funtec).

Potencial econômico – Presente ao evento, o secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco, defendeu que o Brasil só conseguirá atingir o compromisso de reduzir as emissões de gás carbônico entre 59% e 67% até 2035, em comparação ao nível de 2005, se investir em duas iniciativas simultâneas: reduzir o desmatamento e ampliar ações de restauro florestal. “O potencial econômico desse setor é enorme. Diferentes planos de negócio demonstram a viabilidade econômica e a rentabilidade dessas ações. Temos aqui parceiros do setor privado que estão provando que é possível fazer restauro ganhando dinheiro e gerando economia. Não estamos falando de filantropia”, afirmou.

O secretário-executivo também destacou os resultados do programa Eco Invest, parceria entre o MMA e o Ministério da Fazenda, que pretende consolidar-se como o principal instrumento de mobilização de capital privado para a transformação ecológica da economia brasileira. Após atrair mais de R$ 75 bilhões nos dois primeiros leilões, o terceiro leilão do Eco Invest foi anunciado na semana passada com uma novidade: a introdução de um mecanismo de proteção cambial para investidores internacionais. “Tudo isso são políticas públicas com estabilidade institucional e continuidade”, disse.

Concessão de florestas – Em painel sobre concessão de florestas, o diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, defendeu que os processos de concessão potencializam a biodiversidade, os serviços ecossistêmicos, o estoque de carbono e a produtividade madeireira e não madeireira, gerando benefícios sociais, ambientais e econômicos duradouros. Segundo o diretor, a carteira do BNDES contempla hoje 38 projetos de concessão, dos quais 24 já estão sendo executados.

Uma dos painéis colocou em pauta as concessões florestais

Foto: Jaqueline Machado/BNDES

Ele destacou dois exemplos: a concessão das florestas do Jatuarana (AM) e do Bom Futuro (RO). O primeiro caso é de uma concessão de manejo, com o objetivo de proteger a floresta do desmatamento ilegal. Ao longo dos 37 anos de concessão, espera-se a geração de R$ 4,7 bilhões em receita e de R$ 84 milhões em investimentos sociais.

A Floresta Nacional do Bom Futuro foi objeto da primeira concessão federal para restauração na Amazônia, com o objetivo de restaurar 12 mil hectares e proteger outros 78 mil hectares. A expectativa é gerar receita total de R$ 886 milhões e investimentos sociais da ordem de R$ 62 milhões ao longo dos 40 anos de concessão. “O modelo visa atrair investidores privados que ficarão responsáveis pela recuperação das áreas e serão remunerados pela venda de créditos de carbono”, explicou Barbosa. “É um modelo inovador que tem o potencial de proporcionar a escala necessária para a recuperação da Bacia Amazônica”, completou.

O diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro, Garo Batmanian, também defendeu as concessões como estratégia para enfrentar o desmatamento. “Existe um grupo de empresários, tanto na área de restauração quanto no uso da madeira, que estão fazendo a coisa certa. É preciso separar esse grupo dos madeireiros ilegais”, avaliou. Para o diretor de Cadeias Florestais do Imaflora, Leonardo Sobral, as florestas só serão preservadas quando elas valerem mais em pé do que derrubadas. “As iniciativas de concessão florestal são fundamentais para reverter essa equação”, disse.

Créditos de carbono – Os desafios do mercado de crédito de carbono e sua contribuição para a agenda de restauração e conservação florestal foram outros temas debatidos. Para a chefe do Departamento de Apoio à Sustentabilidade do BNDES, Daniela Baccas, a atualização do diagnóstico do mercado de certificação, a identificação de lacunas metodológicas e o debate sobre a governança adequada à realidade nacional são passos necessários para destravar o mercado de carbono voluntário no país.

Debate sobre cadeia produtiva da restauração florestal

Foto: Jaqueline Machado/BNDES

Carina Vidal, representante do Ministério da Fazenda, falou sobre a expectativa para a criação da Secretaria Especial do Mercado de Carbono e destacou que o Fundo Clima é hoje o maior fundo para financiamento climático do Sul global. O cofundador da empresa Mombak, Peter Fernandez, comentou os desafios financeiros. “Fazer carbono de alta qualidade é caro, mas o mercado consegue suportar um preço justo, porque a demanda é muito maior do que a oferta”, afirmou.

Em debate sobre a cadeia produtiva da restauração florestal, o diretor-executivo do Climate Policy Initiative (CPI), Juliano Assunção, defendeu que a floresta deve ser vista como parte da solução para os extremos climáticos. “Nosso dever de casa é elevar o debate sobre florestas nas discussões do clima e promover o restauro florestal como uma solução importante para o mundo”, afirmou.

Foto: Jaqueline Machado/BNDES

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