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14:22 31 de Março de 2020

Por: Agência BNDES de Notícias

Publicação:18:53 10/12/2019 |MEIO AMBIENTE

Ultima atualização: 19:11 10/12/2019

Fotos: Sandra Moraes/Divulgação BNDES

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) avança na incorporação da análise de risco climático como apoio à tomada de decisões sobre a concessão de financiamento a projetos de investimento em infraestrutura. A metodologia em desenvolvimento foi apresentada no seminário Riscos Climáticos em Projetos de Infraestrutura, promovido pelo Banco em parceria com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) no último dia 26 de novembro.

O superintendente da Área de Gestão Pública e Socioambiental do BNDES, Julio Costa Leite, lembrou que o setor de infraestrutura no País é muito deficitário, em razão do baixo investimento, em torno de 1,5% do PIB. “Precisaríamos de um investimento de 4% do PIB”, observou. “Nesse momento em que a gente busca investidores estrangeiros, a mudança climática é uma questão para eles também”.

Ao lembrar a trajetória do BNDES na atuação ambiental, com financiamento e fundos não reembolsáveis, Julio Leite ressaltou que a infraestrutura e, de modo transversal, a sustentabilidade, estão entre os macrossegmentos prioritários no Plano Trienal da instituição.

“O Banco tem uma longa tradição em finanças verdes: foi o primeiro emissor brasileiro de green bonds, com US$ 1 bilhão em 2017; é o maior financiador do mundo de energias renováveis, com US$ 30 bilhões investidos nos últimos anos; é o gestor do maior fundo de conservação florestal do mundo, o Fundo Amazônia, que já recebeu US$ 1 bilhão em doações, principalmente da Noruega e da Alemanha; e acabou de ser credenciado, junto com a Caixa, para repassar recursos do Green Climate Fund, a partir do ano que vem”, enumerou.

 

BNDES avança na incorporação da análise de risco climático em decisões sobre financiamento

Julio Leite (dir.): BNDES tem longa tradição em finanças verdes

 

Ipacc 2 – O seminário fez parte do projeto Investimento Público e Adaptação à Mudança Climática na América Latina (Ipacc 2) e marcou o encerramento da iniciativa, fruto de uma cooperação do Ministério do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha com os ministérios do Meio Ambiente e Economia do Brasil, com coordenação técnica da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ). Como principal financiador de projetos de infraestrutura no país, o BNDES foi convidado a contribuir com seu conhecimento ao projeto.

A iniciativa busca reduzir as perdas econômicas, sociais e ecológicas e orientar os atores políticos e técnicos dos ministérios da área econômica de países como Brasil, Peru e Colômbia para a consideração dos riscos climáticos associados à mudança do clima e opções de adaptação no planejamento e tomada de decisões para investimentos públicos, assim como promover o desenvolvimento de metodologias para inserção desse risco no processo de concessão de fundos para desenvolvimento de projetos de infraestrutura.

“Diversas modelagens climáticas apontam que o aumento de temperatura vai conduzir ao incremento dos eventos extremos, levando à alteração do regime de chuvas, ao aumento de secas, inundações, alagamentos e deslizamentos de encostas, que terão consequências na sociedade e nos sistemas produtivos”, ponderou Hugo Mendes, do MMA, durante sua fala na abertura do evento.

Ações do BNDES – O engenheiro Rodrigo Tosta, do Departamento de Meio Ambiente e Gestão do Fundo Amazônia do BNDES, contou que, no âmbito do projeto Ipacc 2, o banco de fomento desenhou ações de capacitação para trazer conhecimento e percepção da importância do risco climático ao corpo funcional, realizadas em outubro do ano passado e agosto deste ano. O BNDES também fez um benchmarking com outras instituições financeiras de desenvolvimento sobre suas formas de atuação, paralelamente a uma avaliação sobre possíveis pontos de entrada para considerações climáticas no desenho de projetos dos setores de energia e transportes era conduzida, no período entre novembro de 2018 e abril de 2019.

A quarta atividade relacionada ao tema foi o desenvolvimento de um framework, compreendendo metodologia, ferramentas e busca por fontes de informação, além de um documento interno com orientações para sua aplicação prática. Por fim, de forma a avaliar o trabalho final e realizar eventuais ajustes na metodologia, aplicou-se o framework em uma situação hipotética de um projeto no setor de saneamento.

“O objetivo é reduzir o impacto de eventos extremos nos investimentos em infraestrutura”, argumentou o engenheiro. ““A abordagem de risco climático no ciclo operacional do BNDES seria, de forma resumida, a seguinte: na fase de habilitação, o banco busca conhecer o cliente e sua abordagem frente a eventos climáticos; na elegibilidade, conhecer o projeto e eventuais eventos climáticos que possam impactá-lo; na análise e aprovação, avaliar o projeto do ponto de vista de seu setor e localização e potenciais impactos esperados; na contratação, caso tenha sido identificado algum impacto, é o momento de pactuar ações de mitigação dos riscos identificados”.

 

BNDES avança na incorporação da análise de risco climático em decisões sobre financiamento

Nabil: novas ações serão incorporadas à Política de Responsabilidade Social e Ambiental

 

O que vem pela frente – O chefe do Departamento de Meio Ambiente e Gestão do Fundo Amazônia, Nabil Kadri, sinalizou que novas ações relacionadas à gestão do risco climático nas operações apoiadas pelo BNDES serão conduzidas nos próximos ciclos, incorporadas à Política de Responsabilidade Social e Ambiental (PRSA) da instituição: “Provavelmente nos planos de ação que vão vigorar nos próximos anos, a gente terá componentes específicos de plano de trabalho na temática de risco climático nos projetos, seja de crédito, seja de estruturação, seja na parte da carteira de participações”, adiantou.

 

 

Estatísticas projetam danos globais trilionários em 2100

 

James O’Connor, da Climate Finance Advisors, consultoria americana especializada contratada pelo Ipacc para o desenvolvimento do framework, apresentou dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2014), Moody’s Analytics (2019), Burk, Marshall et al, Nature (2018), que projetam danos globais acima de US$ 69 trilhões em 2100 causados por emissões de combustíveis fósseis e cimento.

“Cada 1% de aquecimento reduz o PIB em 1,2%”, salientou. “Estima-se uma redução de 15% a 25% no PIB per capita para 2100 em razão do aquecimento acima de 2 °C”. Os efeitos físicos das mudanças climáticas também ameaçam o risco de crédito soberano de países como Angola, Bolívia, Índia, Jamaica, Moçambique, Paquistão, Senegal e Vietnã, entre tantos outros. “Risco climático é um risco de crédito”, sentenciou O’Connor.

Apresentada pelo pesquisador Lincoln Muniz Alves, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CCST/Inpe), a série histórica dos principais eventos relacionados ao impacto climático indica uma tendência de aumento dos desastres ao longo dos anos, caráter meteorológico, hidrológico ou climatológico. “Esses impactos estão normalmente associados a alguma perda ou dano”, disse.

Dados de uma estação meteorológica na cidade de São Paulo revelam um aumento na frequência de precipitações intensas. “Isso é sinal de mudança climática: diferentes regiões do Brasil têm vivenciado extremos climáticos sob diferentes aspectos, seja excesso de chuva, seja escassez hídrica”, observou. “Até mesmo em regiões onde se tem normalmente uma abundância de recursos hídricos também se tem observado extremos climáticos, normalmente acompanhados de alguma perda ou dano. Entre 2012 e 2015, o Nordeste teve prejuízos de R$ 104 bilhões por causa da falta d’água”.

Lincoln apresentou também algumas das ferramentas já disponíveis para fornecimento de informações climáticas, bem como os avanços esperados para os próximos meses, tudo pensado de forma a simplificar sua utilização pelo usuário. Rodrigo Tosta ressaltou que, desde 2017, quatro dos cinco maiores riscos globais apontados pelo Fórum Econômico Mundial estão relacionados ao clima, atrás somente das armas de destruição em massa. “Em termos de probabilidade, porém, os riscos relacionados ao clima, especialmente eventos extremos, lideram a lista”, frisou.

Dados da Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa), a agência espacial dos EUA, confirmam a tendência de mudança climática. “Pegando uma linha de base de 1951 a 80, com uma distribuição de temperaturas, e comparando-a a mesma medição entre 2005 e 15, tem-se o deslocamento de uma parcela representativa, que já está fora daquele desvio padrão”, explicou o engenheiro.

Tosta destacou alguns dos impactos da mudança de clima em infraestrutura. “Altas temperaturas afetam a operação de aeroportos e causam danos em ferrovias”, observou, mostrando fotos de trilhos deformados pelo calor. “Ventos mais fortes que os previstos destroem aerogeradores em parques eólicos. A seca afeta reservatórios de água”.

O engenheiro lembrou ainda que os danos climáticos a outros setores de atividade econômica também geram reflexos na infraestrutura. “Se a infraestrutura de escoamento da soja foi desenhada para o mapa de referência de 1990 e o plantio for deslocado para áreas de menor risco climático, o escoamento pode não ser otimizado e não cumprir a demanda projetada – ou seja, não terá sua rentabilidade associada ao projeto conforme o previsto”, exemplificou, apresentando dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) que demonstram que, por causa da estiagem, no início deste ano houve quebra da safra de soja que contribuiu para uma redução do PIB do Paraná em 1,61% no primeiro trimestre deste ano, também foi responsável pela queda de quase 27% na produção de energia em Itaipu.

Medidas de proteção – O consultor ambiental do Ipacc, Alexandre Gross, alertou que a crescente exposição das infraestruturas a riscos climáticos compromete o retorno dos investimentos e exige cada vez mais o papel regulador do governo para proteger os financiamentos de longo prazo. “Conceitos metodológicos e informações climáticas são desafios que precisam ser incorporados ao ciclo de concessão de crédito”, advertiu. “É um processo irreversível”.

Ele sugeriu a triagem e consideração de riscos climáticos em investimentos e financiamentos públicos, requerendo de investidores e fornecedores a consideração dos riscos, garantindo sua redução e revendo a repartição das responsabilidades em PPPs, e ainda promover resiliência, por meio de políticas de planejamento espacial, normas técnicas, políticas e regulamentação de infraestrutura, e encorajar a divulgação dos riscos climáticos e sua gestão por parte do setor privado.