Mercadante: multilateralismo é conquista civilizatória da humanidade que não pode retroceder
- Em evento sobre desenvolvimento da América Latina, presidente do BNDES avalia que Sul Global deve ser peça principal para fortalecer instituições multilaterais
- Secretário-executivo da Cepal defende maior integração regional na América Latina
- Acordo Mercosul-UE é ganha-ganha, diz ex-vice-presidente da Comissão Europeia
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, ressaltou a necessidade de uma aliança dos países da América Latina e do Sul Global em defesa do multilateralismo. As declarações foram feitas na tarde desta terça-feira, 3, durante o seminário internacional “Desafios para o desenvolvimento sustentável da América Latina”, realizado pelo Banco em parceria com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
“Estamos vivendo um período histórico de erosão do multilateralismo e de transição muito acelerada rumo a um cenário de mais instabilidade e de relações unilaterais e autoritárias, principalmente em relação aos Estados Unidos”, alertou Mercadante. “Nesse momento em que precisamos reafirmar princípios, um dos valores essenciais é o multilateralismo. O comércio com regras claras e o direito internacional são conquistas civilizatórias da humanidade que não podem retroceder. Atualizar e fortalecer as instituições multilaterais deve ser uma exigência do Sul global, porque isso não virá do Norte”, afirmou.
O Estado Democrático de Direito, a manutenção de uma cultura de paz na América Latina e o enfrentamento aos extremos climáticos também foram apontados por Mercadante como princípios que devem ser defendidos. “A democracia é um valor permanente e universal”, afirmou o presidente do BNDES.
Mercadante elogiou ainda o recente acordo comercial firmado entre Mercosul e União Europeia, defendeu uma maior integração do Canadá e do México com a América Latina e sinalizou os avanços na relação entre Brasil e Índia. Para Mercadante, o mundo assiste a uma emergência da Ásia, com liderança da China, após um processo de desindustrialização e de perda do dinamismo econômico pelo Ocidente.
“A América Latina tem o maior patrimônio genérico da humanidade, as maiores reservas florestais e reservas estratégicas de minerais críticos. Temos que pensar grande e atribuir protagonismo ao BNDES e a outros bancos de desenvolvimento nesse processo. A América Latina precisa estar mais unida e mais próxima – com isso, teremos mais força diplomática e podemos dar uma imensa contribuição para fortalecer as instituições multilaterais. Em vez de vantagens competitivas, precisamos olhar para as vantagens colaborativas”, disse.
Sem citar números, Mercadante aproveitou o evento para antecipar que os resultados do BNDES em 2025 foram “extraordinários”. O balanço do banco deve ser divulgado em março.
Minerais críticos – O presidente do BNDES defendeu que o país precisa ir além da exportação de minerais críticos e gerar valor agregado na América Latina. “Não podemos ter a visão limitada de substituir o ciclo do ouro pelo ciclo do lítio. Temos que produzir baterias, criar mobilidade híbrida, disputar o SAF na aviação e o biocombustível na navegação. Não podemos só vender minerais”, disse.
Na frente climática, Mercadante lembrou as iniciativas do BNDES para restauração do Rio Grande do Sul e da região de Mariana (MG), entre outras. Em janeiro, o Banco investiu R$ 1,3 bilhão para apoiar a aquisição de caminhões novos, mais eficientes e menos poluentes, por meio do programa BNDES Renovação da Frota.
Josep Borrell, presidente do Cidob
Foto: André Telles/BNDES
Acordo Mercosul/UE – Presente ao evento, o presidente do Barcelona Centre for International Affairs (Cidob), Josep Borrell, avaliou que a política comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levou a União Europeia a buscar novas parcerias e impulsionou o recente acordo com o Mercosul. Para Borrell, o acordo pode ser vantajoso para ambas as partes, mas depende de como for implementado. “No fim das contas, implementação é a palavra-chave”, disse.
Ex-vice-presidente da Comissão Europeia, Borrell comemorou que o acordo tenha sido aprovado provisoriamente antes da análise pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, o que poderia atrasar as ações em dois anos. Ele também disse estar confiante com a adoção de mecanismos para proteger o setor agrícola nos dois continentes e negou as alegações de que produtos do Mercosul poderiam entrar na Europa com exigências ambientais menos rigorosas.
Borrell também destacou que a América Latina é a “reserva do futuro”, destacando a concentração de minerais críticos, mas disse que as revoluções digital e climática devem ser feitas de forma justa. “É preciso imaginar que outro mundo é possível, mais humano, mais capaz de entender os movimentos de pessoas que fogem de ditaduras e de ameaças climáticas”, disse o executivo. “A chave do sucesso e da sobrevivência da espécie humana é a cooperação, porque temos objetivos e restrições comuns, não o confrontamento”, completou.
José Manuel Salazar-Xirinachs, secretário-executivo da Cepal
Foto: André Telles/BNDES
Integração regional – O secretário-executivo da Cepal, José Manuel Salazar-Xirinachs, listou três armadilhas para o desenvolvimento da América Latina: a baixa capacidade de crescimento, a alta desigualdade social e a baixa capacidade institucional e de governança. Ele também destacou o enfraquecimento do sistema multilateral. “Diante dessas mudanças, é urgente que os países da América Latina redefinam as estratégias de integração. Se existe um país que pode fazer coalizões regionais importantes, é o Brasil”, afirmou.
Aliozio Mercadante, presidente do BNDES
Foto: André