Mercadante destaca papel do Estado, transição verde e neoindustrialização na Escola Maria da Conceição Tavares
- Nova turma reúne 66 participantes de mais de 15 países da América Latina e do Caribe, sendo 33 brasileiros e 33 provenientes de outros países da região
Em aula magna proferida nesta quinta-feira, 21, na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio, o presidente da instituição, Aloizio Mercadante, destacou os desafios contemporâneos do desenvolvimento, o papel estratégico do Estado e as oportunidades para a América Latina. A aula magna abriu a programação do quarto dia da segunda edição da Escola de Governo e Desenvolvimento Maria da Conceição Tavares, que termina nesta sexta-feira, 21.
Mercadante defendeu a formação de uma nova geração de gestores públicos capazes de combinar visão técnica, compromisso social e capacidade de formulação estratégica. “Os servidores públicos são essenciais para a qualidade dos serviços e para qualquer projeto de desenvolvimento”, afirmou. “Precisamos formar quadros preparados para pensar o Estado e agir com soluções concretas”.
O presidente do BNDES destacou que a criação da Escola responde à necessidade de fortalecer a cooperação entre países latino-americanos e ampliar a capacidade de formulação de políticas públicas. Para ele, é fundamental construir uma rede duradoura entre gestores públicos, voltada ao compartilhamento de experiências e à integração regional.
Mercadante ressaltou ainda o legado intelectual de Maria da Conceição Tavares, homenageada pela iniciativa, como referência na construção de um pensamento desenvolvimentista próprio para a América Latina, voltado à superação das desigualdades e à afirmação da soberania regional.
Ao analisar os padrões globais de crescimento, Mercadante contestou a visão de “Estado mínimo” e destacou a importância de uma relação equilibrada entre Estado e mercado, citando o avanço de economias asiáticas, especialmente a China, como exemplo de modelos que combinaram planejamento estatal, inovação e dinamismo de mercado. “O desenvolvimento exige planejamento, investimento público e instituições fortes”, ponderou. “O mercado, sozinho, não resolve desafios estruturais, especialmente em países de industrialização tardia como os da América Latina”.
Transição climática– Um dos principais eixos da palestra foi o enfrentamento das mudanças climáticas. Mercadante destacou o papel do BNDES no financiamento de ações emergenciais e estruturais, como o apoio de R$ 29 bilhões ao Rio Grande do Sul após as enchentes e a criação de uma diretoria voltada a desastres naturais.
O presidente também defendeu a criação de fundos internacionais permanentes para apoiar países afetados por eventos extremos e ressaltou a importância de políticas públicas de prevenção, monitoramento e reconstrução econômica.
Na agenda verde, Mercadante enfatizou o protagonismo do Brasil na transição energética, destacando a liderança do BNDES no financiamento de energias renováveis e o papel estratégico dos biocombustíveis, como etanol e biodiesel. Ele também citou iniciativas inovadoras, como combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e soluções tecnológicas para mobilidade de baixo carbono.
Neoindustrialização – Mercadante reafirmou a necessidade de uma política de neoindustrialização para a América Latina, com foco em inovação, agregação de valor e sustentabilidade. Ele destacou a Nova Indústria Brasil e os investimentos do BNDES em setores estratégicos, como saúde, inteligência artificial, mobilidade e economia verde.
Entre as iniciativas apresentadas, estão linhas de crédito para transporte sustentável, incentivo à produção de veículos híbridos e elétricos, e apoio à cadeia de minerais críticos, com foco na agregação de valor e soberania sobre recursos naturais. “O desafio não é apenas extrair recursos, mas desenvolver cadeias produtivas completas e inovadoras”, observou.
Inclusão e tecnologia – O presidente do BNDES anunciou medidas voltadas à inclusão econômica, como a linha de financiamento de R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativos e taxistas, com condições facilitadas para aquisição de veículos. A iniciativa busca reduzir custos, aumentar renda e promover a transição para veículos menos poluentes.
Outro destaque foi a defesa do uso de tecnologia e inteligência artificial na segurança pública. Mercadante apresentou iniciativas para criação de “cidades inteligentes”, com sistemas de monitoramento e análise de dados para prevenção e combate ao crime organizado.
Multilateralismo – No campo internacional, Mercadante destacou a importância do multilateralismo e da cooperação entre países em desenvolvimento. Ele defendeu acordos comerciais baseados em regras, como o firmado entre Mercosul e União Europeia, e criticou práticas unilaterais no comércio global.
Também reiterou a necessidade de fortalecer a integração latino-americana por meio de investimentos em infraestrutura, energia e cadeias produtivas regionais.
A diretora da Cepal no Brasil, Camila Gramkow, e a diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello
Foto: André Telles/BNDES
Sobre a escola – A Escola de Governo e Desenvolvimento Maria da Conceição Tavares é uma iniciativa conjunta do BNDES e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) voltada à formação de lideranças comprometidas com o desenvolvimento econômico, social e ambiental da América Latina e do Caribe.
A nova turma reúne 66 participantes de mais de 15 países da América Latina e do Caribe, sendo 33 brasileiros e 33 provenientes de outros países da região, em um ambiente de formação caracterizado pela diversidade institucional, territorial e de gênero.
Ao abrir as aulas da segunda turma, na segunda-feira, 18, a diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, ressaltou o papel da escola como espaço de continuidade histórica do trabalho conjunto entre o BNDES e a Cepal, bem como de produção de pensamento crítico voltado aos desafios contemporâneos da região. Campello ressaltou que as profundas desigualdades nos países da região são obstáculos ao crescimento econômico. “Não enfrentaremos esses desafios com um Estado ausente ou fraco”, afirmou. “Estamos diante da necessidade de retomar o papel do Estado na agenda do desenvolvimento socioeconômico, a partir da nossa realidade latino-americana”.
Tereza frisou ainda que o debate climático não deve ficar centrado unicamente na transição energética. “Muitas vezes somos levados a pensar a crise climática a partir dos paradigmas colocados para o Norte global”, observou. “Se partirmos apenas do carbono-equivalente, nunca conseguiremos aproveitar o potencial de desenvolvimento que a América Latina e o Caribe possuem como portadores de futuro nas soluções baseadas na natureza”.
A diretora da Cepal no Brasil, Camila Gramkow, destacou que a construção de respostas comuns na América Latina “passa pela formação de lideranças diversas e pelo diálogo entre países, instituições e trajetórias distintas”.
A segunda edição da escola está estruturada em três etapas: a Etapa Brasil, realizada presencialmente no Rio entre os dias 18 e 22 de maio; a Etapa Online, que ocorrerá entre junho e setembro de 2026; e a Etapa Chile, prevista para acontecer na sede da Cepal, em Santiago, em data ainda a ser definida.
A programação da Etapa Brasil contempla aulas magnas, conferências temáticas e oficinas instrumentais com figuras de relevância internacional, como Aloizio Mercadante (BNDES), José Antonio Ocampo (Universidade de Columbia), Esther Dweck (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos), Daniel Olesker (Uruguai), Celso Amorim (Governo do Brasil), Carlos Nobre (INCT para Mudanças Climáticas), Uma Rani (OIT), Ha-Joon Chang (Soas University of London) e Antonio Andreoni (Soas University of London), entre outros.
A Escola de Governo e Desenvolvimento Maria da Conceição Tavares busca oferecer um espaço construtivo para a formulação de propostas destinadas a superar os desafios e as complexidades do século XXI, com o objetivo de construir um futuro mais produtivo, inclusivo e sustentável na região. Inspirada no legado de Maria da Conceição Tavares, que contribuiu para a formação de uma geração de formuladores de políticas públicas e acadêmicos que desenvolveram um pensamento próprio e crítico sobre planejamento e desenvolvimento no Brasil e na América Latina, a Escola combina formação teórica, instrumental e aplicada.
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Livro – O BNDES lançou nesta quinta-feira o livro Transformações em curso: políticas públicas para o desenvolvimento latino-americano. A obra reúne trabalhos da primeira edição da Escola de Governo e Desenvolvimento Maria da Conceição Tavares. A seleção de artigos expressa o objetivo da escola: capacitar lideranças da região para conduzir políticas públicas centrais às transformações econômicas, sociais e ambientais em curso. A publicação está disponível para download em formato PDF (portable document format). |
Aloizio Mercadante, presidente do BNDES
Foto: André Telles/BNDES
