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BNDES - Agência de Notícias

18:11 02 de Dezembro de 2021

Blog do Desenvolvimento

Por: Ana Cristina Rodrigues da Costa

05:19 22/09/2021

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Indústria, inovação e possibilidades para o desenvolvimento brasileiro

 

Quando falamos em inovação é muito comum pensarmos de imediato em ciência e pesquisa básica, cujo produto, depois de uma série de desenvolvimentos experimentais, chega à etapa de produção. Essa visão linear do processo acaba por não colocar foco sobre as diversas interações, feedbacks e acúmulos de conhecimento necessários para alcançar a inovação, bem como sobre o principal ponto: que ela só ocorre de forma completa quando há efetiva demanda e uso, seja público ou privado.

A capacidade de inovar, ou de ser inovador, não pode prescindir da existência de conhecimento acumulado em esforços, pesquisas e interações intrafirma, interfirmas e com o ambiente institucional existente para pesquisa e desenvolvimento (P&D). Dada sua relevância como mecanismo de aprendizado (a engenharia reversa, por exemplo, foi uma prática deliberada de muitos países para internalizar conhecimento), esses processos criam as condições para o desenvolvimento das capacidades de absorção e, portanto, das capacitações para inovar. Ao mesmo tempo, é crucial mencionar que não se pode abdicar de uma visão de demanda agregada – seja de governo, como nas encomendas tecnológicas em saúde e defesa, por exemplo, seja do setor privado, como no caso das empresas de média e baixa tecnologia ou das empresas exportadoras.

Inovação e indústria possuem laços indissociáveis. Conforme Miguez et al (2018), “o processo de industrialização foi o alicerce que permitiu o desenvolvimento de diversos países, fazendo com que novos mercados surgissem, a produtividade se elevasse e a renda per capita aumentasse”, uma vez que a indústria, além de ser o tecido no qual as inovações são criadas e absorvidas, demanda mão de obra mais qualificada e serviços intensivos em conhecimento.

 

Crise de 2008 e retomada das políticas industriais

 

Desde a crise financeira de 2008, verifica-se relevante retomada do uso de políticas industriais pelos países desenvolvidos e emergentes, com forte ênfase no desenvolvimento de tecnologias habilitadoras – que possibilitam novas atividades econômicas ou revigoram as tradicionais. De acordo com Daudt e Willcox (2018), esse interesse renovado em política industrial é reflexo de mudanças na natureza da manufatura, como o declínio da participação da atividade manufatureira em vários países desenvolvidos, a crescente competição com os países emergentes e a aceleração progressiva das transformações tecnológicas.

Com a fragmentação da produção existente baseada nas cadeias globais de valor, estabeleceu-se uma visão de que deter atividades ligadas à “economia do conhecimento” seria melhor do que produzir “coisas”. Contudo, a crise de 2008 colocou em questão se, de fato, a manufatura ainda não é relevante para gerar riqueza nos países avançados e se a política de offshoring não foi longe demais. Verificou-se, ainda, que o processo de desenvolvimento tecnológico está associado ao processo de produção e que a proximidade das equipes de desenvolvimento em relação ao chão de fábrica é vital para o processo inovativo. Políticas industriais e de inovação objetivam a liderança industrial e o domínio tecnológico, dado que as nações desenvolvidas visam manter sua preponderância na geopolítica global.

 

Desafios globais e o caráter estratégico da indústria

 

Com a eclosão da pandemia em 2020, essa retomada das políticas industriais e de inovação voltadas para o desenvolvimento de tecnologias habilitadoras, em especial daquelas ligadas à Indústria 4.0, foi ainda mais acentuada, uma vez que a alta transmissibilidade e disseminação da Covid-19 nos países submeteu as estruturas produtivas e as cadeias globais de valor a uma grande tensão, ampliando as rivalidades entre estados nacionais e tornando mais evidente “o caráter estratégico da indústria, uma vez que ela confere autonomia e resiliência a seu detentor diante de crises de diversas naturezas” (MUNGIOLI, WILLCOX E DAUDT, 2020).

Assim, políticas que visem o fortalecimento de empresas e cadeias produtivas locais competitivas e estratégicas permitem um desenvolvimento industrial com menor dependência das cadeias globais de produção em setores-chave da economia, e o impulso ao desenvolvimento e investimento em tecnologias ligadas à indústria 4.0 pode fomentar estruturas industriais locais mais complexas e flexíveis, permitindo o reshoring. Vale lembrar que estamos em um cenário de progresso tecnológico acelerado, acirramento da concorrência e busca de países avançados pelo domínio tecnológico.

Considerando ainda a urgência ambiental e climática atual, podemos acrescentar que essa busca por sofisticação produtiva e tecnológica deve ser também ambientalmente sustentável. Conforme Cardoso et al (2021), deve ocorrer por meio da expansão de capacidades tecnológicas para soluções resilientes e de baixo carbono, “baseada em diversificação e complexidade da estrutura produtiva, bem como em um perfil mais competitivo de exportações (...)”.

Ou seja, além da crescente competição com os países emergentes e da aceleração das transformações tecnológicas que levou os países desenvolvidos a retomar o uso de políticas industriais e de inovação para manter sua liderança global, o mundo, ainda antes da atual crise econômica e sanitária advinda da pandemia, já vinha enfrentando desafios que afetam simultaneamente todos os países, independentemente do seu estágio de desenvolvimento.

São exemplos desses desafios:

  • A necessidade de reduzir o impacto ambiental das atividades econômicas.
  • O aumento da produtividade a partir de novas formas de produção.
  • O envelhecimento populacional.
  • A necessidade de consumo responsável e inteligente.
  • A segurança alimentar e a sustentabilidade (energética e de insumos).

Somados às consequências da pandemia, esses desafios reforçaram a relevância da produção nacional de insumos, equipamentos e produtos estratégicos em todos os países, a fim de se manter algum grau de segurança e autonomia para seus cidadãos. E não podemos esquecer do fator estratégico advindo do maior uso das tecnologias habilitadoras, em particular as digitais, que tornam os países cada vez mais dependentes de infraestrutura de conectividade e de softwares fabricados sob encomenda com protocolos de integração produzidos nos países avançados, cujas empresas detém o atual domínio de tais tecnologias.

 

Oportunidades para inovação: o papel da indústria

 

Esse aumento da relevância do desenvolvimento de tecnologias endógenas, explorado por empresas locais competitivas em atividades de alta tecnologia, reforça ainda mais a existência desse elo indissociável entre indústria e inovação. Nesse contexto, precisamos refletir se o Brasil pode se contentar em ter seu papel restrito ao consumo (somente importando) dessas novas tecnologias e/ou à produção local nos elos das cadeias de valor com menores margens. Não podemos perder as capacidades de inovar acumuladas e ainda existentes em nosso tecido industrial, fruto de investimentos públicos e privados pretéritos, mas ainda relevantes. Como já mencionado, tendo em vista as sinergias para a capacidade de inovar que são potencializadas quando há proximidade entre atividades de chão de fábrica e outras mais nobres, como as de engenharia e tecnologia, a separação excessiva de determinadas atividades pode minar, destruir ou impedir a criação de novas capacidades inovativas próprias em nosso país.

Se levamos em conta que o contexto geopolítico multipolar, as modificações das cadeias globais de valor ao redor do mundo, o aprofundamento das políticas de P&D voltadas para tecnologias inteligentes e conectadas e a necessidade de enfrentar as questões ambientais podem dificultar a construção de ações para o desenvolvimento industrial e de inovação em países periféricos como o Brasil, também precisamos perceber que esse mesmo contexto complexo pode abrir novos espaços e oportunidades para que o Brasil alcance efetividade com uma política tecnológica e industrial sustentável própria.

É de extrema relevância ir além da mera adoção de tecnologias e inovações, pois essa difusão tecnológica não será homogênea entre os setores e países, ocorrendo de forma lenta, gradual e diversa, a depender de diferentes fatores.

 

Fatores que influenciam a difusão tecnológica

 

Estrutura industrial: existência/escala de setores capazes de absorver as tecnologias habilitadoras (digitais, inteligência artificial, biotecnologia etc.).

O Brasil tem setores e empresas com capacidade de absorção de novas tecnologias, tais como saúde, energia renovável, bens de capital, automotivo, aeronáutico e petróleo e gás.

Heterogeneidade do parque industrial (ex: convivência entre grandes empresas multinacionais e empresas de menor porte).

O país conta com um parque industrial heterogêneo, que necessita buscar o crescimento das empresas médias e de menor porte, a fim de fortalecer as cadeias locais de fornecimento com maior agregação de valor e inovação para maior atração de investimentos locais das empresas multinacionais.

Ausência de empresas nacionais detentoras de tecnologias

Esse é um importante gargalo que precisamos enfrentar, e pode ser consequência direta, como considerado no ponto anterior, da busca pelo apoio ao crescimento de empresas de pequeno e médio porte, visando maior capacidade de produzir e absorver inovações e tecnologias.

Fatores macroeconômicos associados ao nível de atividades/escala

A conjugação dos fatores macroeconômicos, como taxa de câmbio e política industrial, ou tarifas de importação e política industrial, deve ser coordenada e convergente.

Conjunto de capacitações organizacionais e produtivas ao nível das firmas

Nesse campo há a mesma diversidade relativa ao porte das empresas, mas temos no Brasil estruturas acadêmicas de ciência e tecnologia (ICTs) e o Sistema S, que podem cumprir o papel de elevar e fomentar essas capacidades se apoiados para isso.

 

Estratégias para a inovação na indústria

 

Como proposto por Daudt e Willcox (2016), o país pode enfrentar tais questões construindo e reforçando uma base industrial nacional e buscando uma cooperação mais intensa com as empresas multinacionais já instaladas no Brasil, pois o reforço de políticas nacionais industriais e tecnológicas tem como pressuposto a constituição de setores com empresas capazes de assimilar e produzir novas tecnologias. É preciso incluir na política industrial

 “o desenvolvimento de tecnologias que: (i) avancem em características positivas já existentes, como os novos desafios postos a setores tradicionais como agricultura e petróleo (resource-based strategy); (ii) busquem resgatar a competitividade de setores industriais, enfrentando problemas de competitividade; ou ainda (iii) desenvolvam novas áreas de conhecimento e atividades econômicas, sejam elas industriais e/ou de serviços” (MIGUEZ ET AL, 2018, p. 07).

Se para absorver as novas tecnologias é preciso ter atingido certo estágio de desenvolvimento industrial – e ainda que o Brasil tenha sofrido recuos em seu estágio de desenvolvimento industrial nas últimas décadas, como indicam Mungioli et al (2020) e tenhamos desafios e gargalos a serem superados, conforme essa breve análise dos fatores supracitados – é possível verificar, sob essa mesma análise da estrutura produtiva, que o país

“ainda possui meios para assumir relevância industrial e tecnológica em alguns setores, o que lhe permitiria uma inserção mais autônoma no sistema internacional e maior capacidade de compartilhar da riqueza global. Para tanto, porém, urge que o País mobilize o seu aparato institucional para apoiar a sofisticação do tecido produtivo com foco nas necessidades da sua população” (MUNGIOLI, WILLCOX e DAUDT, 2020, p. 94).

Levando em consideração as características do Brasil frente aos fatores citados e o contexto internacional, depois dessas breves reflexões, trazemos ao leitor não uma conclusão, mas algumas questões a serem discutidas:

  • Como pensar ou reforçar as ações para fortalecer uma política industrial e de inovação, bem como o atual sistema nacional de inovação?
  • Como buscar maior sinergia e complementaridade dos instrumentos e recursos existentes para inovação?
  • Como alavancar os recursos existentes?
  • Como aumentar a articulação institucional e esforço de coordenação e cooperação entre as instituições públicas e privadas?
  • Como tratar a questão do emprego e as capacitações necessárias?

 

Estratégias de fomento à inovação industrial

 

Na história do processo de industrialização brasileiro e até os dias de hoje, o BNDES contribui e participa dessas reflexões e debates para a construção de uma visão de futuro para o Brasil, buscando desdobrá-la em insumos para a elaboração de uma política industrial com um roadmap tecnológico, com financiamento de longo prazo. O Banco pode ser ainda mais relevante em seu papel de catalisador e financiador dos investimentos e das soluções para inovação, fomentando os investimentos do setor privado; participando, coordenando e atuando no financiamento direto de longo prazo e em parceria com o sistema nacional das instituições e bancos de desenvolvimento existente; bem como usando sua experiência para fomentar instrumentos financeiros em parcerias público-privadas, na obtenção de créditos públicos e privados, e no mercado de capitais. Tudo isso visando contribuir para o apoio à inovação na busca por uma transição tecnológica e energética capaz de enfrentar questões climáticas e sociais tão prementes.

 

Parceria BNDES-Embrapii

 

Para ilustrar com um exemplo recente no campo do apoio à inovação para a indústria, vale citar a parceria do BNDES com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) para viabilizar, dar agilidade e capilaridade no apoio a projetos de inovação relacionados ao combate, tratamento e diagnóstico do coronavírus (Covid-19), no contexto de enfrentamento da pandemia. Celebrado em 2020, o acordo alavanca recursos públicos e privados, amplia a capilaridade do financiamento e ainda reduz a fragmentação do apoio brasileiro à inovação.

Características da parceria com a Embrapii:

  • Resultado de esforço coletivo e convergente de recursos existentes nas instituições e nas empresas para desenvolver e colocar rapidamente em produção industrial soluções de combate ao coronavírus.
  • Atuação coordenada que potencializa as competências e sinergias existentes entre as duas instituições, fortalecendo o Sistema Nacional de Inovação e o Sistema Único de Saúde (SUS).
  • Complementação das iniciativas em curso, apoiando projetos em nível de maturidade tecnológica elevada e que possuem impacto esperado em um menor espaço de tempo.
  • Fomento direto ao desenvolvimento de tecnologias para combate, tratamento e diagnóstico do coronavírus (Covid-19).
  • Fortalecimento das competências da indústria e desenvolvimento de tecnologias habilitadoras (internet das coisas – IoT, inteligência artificial – AI, novos materiais) para a retomada da atividade econômica com segurança.

 

Conclusão

Desenvolver soluções que reconheçam a relevância da indústria tanto como geradora e difusora de inovações e tecnologias, quanto como geradora de riqueza, produtividade e empregos de qualidade, proporcionará maior agregação de valor com o fortalecimento e aumento das capacidades produtivas e inovadoras no tecido industrial e de serviços intensivos em conhecimento no país. Tais resultados, obtidos a partir do uso de políticas industriais e de inovação, que possibilitam gerar contribuições para a transformação da estrutura produtiva, poderão promover impacto efetivo e positivo no desenvolvimento socioambiental para uma sociedade cada vez menos desigual. 

 


 

 Ana Cristina Costa

 

 

Ana Cristina Rodrigues da Costa

Coordenadora de Estratégia Industrial e Desenvolvimento da Área de Indústria, Serviços e Comércio Exterior do BNDES

 

 

 

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